domingo, 11 de janeiro de 2009

Maria Saudade

Dizia não se lembrar de um dia assim, com a água tão fria, enquanto entre os quatro comentávamos que aquele caldinho vinha mesmo a calhar para tirar o pó ao fato curto de dois milímetros. Aproximou-se uma onda e ele empurrou-a pela prancha enquanto ela fazia o possível para agarrar aquele espelho líquido de meio metro sem que os seus movimentos sobrecarregassem o ventre onde trazia agora o segundo filho de ambos.

Já fora de água vi-a olhar para o Mar. Sabia que era a sua última surfada e vi-lhe já saudade no olhar. Saudade é o nome que lhe dei, Saudade é o nome que ela tem. Se a Saudade tivesse um rosto, para mim seria o de Maria ali, a olhar aquele Mar. Tirava-lhe um retrato, pintava um quadro se fosse pintor, e caso os meus dotes artísticos estivessem à altura da profundidade da sua expressão, então aquela seria, muito provavelmente, a minha obra prima. Intitulava-a -"Saudade de Ti, Tagahzout", haveria de estar exposta num museu europeu de arte e ali seriam vendidas réplicas em formato de postal a turistas de visita a Agadir.

Faz três anos que foi de férias para Tagahzout, três anos que conheceu Mohcine com quem aprendia a surfar, que se apaixonou, que deixou Portugal e foi viver para lá. Faz outros tantos que é mãe de Yasmine, uma criança linda.

-"É assim mesmo muito fria a água lá no inverno não é?" - pergunta-nos ela. Nunca cá surfou. Não conhece as ondas da costa alentejana e já ouviu falar muito bem de Peniche e dos seus Supertubos.

Trocou o Sul da Europa pelo Norte de África e vive o seu sonho pessoal talhando a pulso um caminho que quem a observa compreende ser o seu. E que não fosse.

A braços com um couscous sem segredos, no terraço de sua casa ordena qualquer coisa em espanhol para o cão que por ali se queda. Fala árabe com Mohcine, francês com Yasmine e espanhol com o rafeiro habituado assim a obdecer aos antigos donos que por ali o deixaram.

Há-de estar por estes dias a pensar que já não falta tudo. Todos os dias vê o Mar. E se, diz o povo sabedor, a criança nasce com cara do objecto de desejo da mãe quando não saciado, por certo ouvirá dizer - "...tão bonitinho...tem cara de point break de direita num dia de metro, glass".

2 comentários:

tatiana disse...

Lindo ... só !

E, inspirador !

kiss

etienne neto disse...

Demais...
Por incrível que te possa parecer, o meu primeiro contacto com Tagahzout foi mesmo mau.
Uma surf-trip de 12 dias com dois dias de ondas apenas. Um em Tamri over-crowd e Imssouane com ondas pelo joelho. Valeu-me no mesmo dia La Catedral com sets de 2 metros. A ressaca era tanta que entrei com o meu Long-Board para não ter que mew chatear com ninguém e "acampar" bem lá fora para arrancar primeiro.
espero ter sorte na proxima surf-trip em que lá for.
Abraço e continua a escrever.
etienne