Terça-feira, 21 de Julho de 2009

A Insustentável Leveza do Surf


Fotografia de Thomas Campbell

Decido não tomar banho! Ainda tenho surf na pele e prefiro assim. Bem sei que é um receio irracional, este meu, de se me ir o prazer que ainda carrego no sabão e na água do duche, mas levar a surfada do dia, à noite para a cama, dá-me melhor dormir.

Quem vai ao mar sabe do prazer de que falo, mesmo aqueles que tomam banho - certamente de melhores hábitos que os meus - e que não se rendem às incertezas, que lhes surgem, contrárias à razão. Nada melhor me ocorre para enfrentar qualquer insónia que a leveza de um corpo cansado e o prazer que nos invade e perdura das nossas danças de mar. Fechamos os olhos e continuamos lá, naquela musicalidade tão próxima do sonho que a realidade nos entrega quando melodicamente seguimos a deslizar.

Quando me deito é este sabor a surf que ainda quero ter nos lábios, que mudos, ainda assim soletram de cor as vagas que de dia nos embalaram… e de repente, é vê-las ganhar mais um metro em altura e outros duzentos em comprimento… sem sabermos que já estamos a sonhar.

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Elogio da loucura


Ilustração de Vera Costa

Era bizarro, mas nós já não estranhávamos. Já nos tínhamos habituado a ver aquele homenzinho, de quando em vez, a passar por nós pedalando todo nu na sua ‘pasteleira’. Ao que parece bastava exceder-se um pouco mais na bebida que lá se ia a roupa, e depois, como que a consagrar a desinibição alcançada, pegava na bicicleta e dava a volta da praxe pelo meio da cidade.
Estes episódios, apesar de tudo, não lhe eram levados a mal. Desde moço que a gente da terra o conhecia – a ele, ao seu desequilíbrio e àquele seu hábito particular.
Nessas alturas, à sua passagem, os homens já só o apontavam rindo com pena
– Olhem, lá vai o Asdrúbal!
– Coitado do Asdrúbal!
sentenciando-lhe mais a bebida do que a nudez
– Dá cabo dele, o vinho!
Já as mulheres olhavam de soslaio para o que jurariam mais tarde nem sequer ter reparado, benzendo-se e corando com tão mal empregue pedaço de/o homem
– Coitadinho. Tivesse ele juízo!
fazendo contas de cabeça…
E nós, miúdos, talvez mais astutos, apenas reparávamos como ele seguia tão direitinho para tão proclamada bebedeira. Vai na volta e esses seus estados de embriaguez nem eram assim tão profundos; muito possivelmente eram-lhe apenas uma desculpa para se revelar tal como era, seguindo fora de eixos mesmo que assim tão direitinho, só que no caso do Asdrúbal essa questão de se despir à sua verdadeira essência tinha
(convenhamos)
um carácter demasiado literal.

O Viriato era outra personagem sui generis lá da terra, a meu ver bem mais inofensivo – que só lhe dava para pegar na guitarra e cantar o fado – mas por fazê-lo constantemente, a qualquer hora e por tudo e por nada também ia mantendo, tal como o Asdrúbal, uma relação próxima com a guarda, que não raras vezes era chamada para lhe pôr fim à cantoria
– Hão-de cá vir que tenho o Viriato à porta! ‘Tá’ bem que o homem até tem boa voz, mas já são duas da manhã, ele não se cala e amanhã trabalho!

Lembrei-me destes dois a propósito de uma outra figura: uma pobre rapariga, de rico sorriso, que de certa forma, no seu desequilíbrio, partilha deles algumas características.
Costumava vê-la na Costa quando ia surfar, aparecia a rir
(sempre a rir)
a baloiçar na mão um daqueles baldes pretos, vulgares, como os que se usam nas obras para acarretar cimento, com o fato de neoprene lá dentro.
Tal como ao Asdrúbal e ao Viriato via-a despida e musical a passar; despida, mas não nua – despojada, apenas, do supérfluo - nada de autocolantes, nem de marcas, nem cenário ou pose descontraída e falsa de quem vê no surf uma moda - muito pelo contrário, que depois do fato enfiado no corpo, fazia o mesmo a um saco de plástico colorido nos cabelos, dando-lhe uns pequenos nós ao redor da cabeça para que não se fosse com as ondas.
De certa forma ela representava da forma mais pura a alegria tão básica de quem vai surfar. Sorrindo
(sempre sorrindo)
via-a entregar todo o seu empenho para se levantar nas ondas mais pequenas do inside; e quando conseguia, nada de pose descontraída, antes se elevava toda hirta, abrindo bem os braços para se manter equilibrada e assim, de saco de plástico azul ou rosa na cabeça, seguia como o Asdrúbal – fora de eixos mesmo que assim tão direitinha.
Levando a máxima de ‘só-mais-uma-e-já-saio’ literalmente à exaustão, só o cansaço a retirava do mar. A fazer lembrar, mais uma vez, o Viriato, que mesmo quando o ‘Sôr’ Guarda aparecia a resmungar imponente por detrás do bigode
– Queira acompanhar-me por favor.
ele ainda lhe tentava dar a volta e cantar mais uma
– Em dó ou em sol?


((em papel na FreeSurfMagazine nº12, Junho 2009))

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Slow Shape



À primeira até vos pode soar estranha a ideia, mas a concepção desta prancha coincide e muito com a última receita de Risotto que segui cá em casa.

Qualquer dia posso-vos passar a receita, mas basicamente a ideia consiste em deixar apurar o arroz a cada cace de caldo acrescentado, aos poucos, ao longo de uma boa meia-hora - pode demorar, pode dar trabalho e pedir paciência, mas para quem aprecia boa comida vale bem toda a atenção despendida.

Com esta comparação não estou a dizer que o Filipe Hage não despacha trabalho, apenas que ele entrega toda a atenção a cada prancha fabricada empregando o tempo necessário a cada fase para alcançar os melhores resultados.

Mais uma vez pode parecer tolice, mas esta forma de agir do Filipe, responsável e perfecionista lembram-me as directrizes que orientam a filosofia da Slow Food, que em contraposição à Fast Food se opõe à padronização do gosto, ao ritmo frenético da vida actual, defendendo a necessidade de informação do consumidor e protegendo os processos e técnicas tradicionais de bem-fazer.

A principal razão porque encomendei a prancha ao Filipe, para além de lhe conhecer a habilidade como shaper, foi por esperar esta sua atenção meticulosa... vamos então esperar e ver o resultado final.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

É uma meniiiiina!

Com a atenção que só os bons profissionais sabem dispensar, o Dr. Filipe Hage não deixou de me enviar imagens da mais recente ecografia morfológica da menina.



Ao que parece está de plena saúde, a desenvolver-se em plena harmonia de formas, nas medidas esperadas para o percentil médio tabelado, e comprova-se: É uma menina!

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Hand Made Boardbag!


A ideia já a tinha há algum tempo, mas ao tropeçar neste trabalho acabei mesmo por cair no ânimo que me faltava para a concretizar.

A minha mulher nem gozou comigo nem nada... diz que me ensina a coser. Pode ser que me safe!

Já tenho o esboço "alinhavado"... agora só o falta "cerzir" - vejam lá aqui ao lado.

Não sei se a escala do tecido das ondas corresponderá aqui à montagem, nem se a espessura será a mais adequada, mas vou improvisando pelo caminho e depois logo vos digo.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

My Girl

Ilustração de Vera Costa


Aprendi a surfar numa prancha em 1ª mão, com pintura personalizada e polida. Nove pés com uma longa faixa em tons de azul ‘maldiviano’. Poderia ter sido mais modesto, procurado algo mais indicado para um principiante, mas à luz da tag-line que li algures para uma surf-shop, fui presa fácil para o vendedor: vendem-se sonhos...

No entanto, nem tudo foram hibiscos. Com um investimento inicial destes, todo o cuidado que tinha para manter aquela semente incólume fez com que aprendesse a andar nas ondas sem quedas. Ora, um bom cavaleiro tem de cair no mínimo sete vezes e eu, que não dropava atrasado nem me atirava a close out’s, apenas imaginava a verdadeira força do mar. Pensando bem, sabendo das capacidades do mais poderoso órgão do corpo humano e que é do desconhecido que temos maior medo, ter aprendido a surfar foi quase um acaso. Três anos depois vendi-a por metade do que me custou, sem nunca ter tido arranjos ou necessitando de algum. Julgo ter feito um excelente negócio... mas na perspectiva de comprador. Só que ao valor sentimental daquele foam-para-toda-a-onda começava a sobrepor-se a vontade de novas experiências e, se há coisa a que é mais difícil resistir que àquela última para sair, é a uma nova prancha.

Troquei-a por uma 9’6” clássica, cor-de-verão, que me poupa braçadas na remada para as investir no transporte fora de água. Até me habituar àquele peso todo, a inércia que me permitia apanhar ondas que nem sabiam que o eram, quase me tirava a capacidade de chegar até elas. Apanhava tudo o que mexesse e, com uma quilha de 10,5 polegadas e alguma mestria, isso incluiria robalos. Aperfeiçoei as caminhadas, os nose-rides e os sorrisos de final de surfada, mas como em dias maiores me via e desejava para chegar lá fora, deixei-me novamente seduzir pelo canto das sereias...

Desta vez não tive necessidade de fazer trocas. No meio de conversas de renascença das fish’s e filmes artísticos como o Sprout e o Glass Love, pesquei uma quad 6’0”, bem espessa para tentar não estranhar muito o alternar com o pranchão. Quanto a isso, não há forma: uma coisa é uma coisa, outra coisa... O surf em si é fantástico, mas aquela entrada de onda que até aí vinha experimentando é completamente diferente e andei muito tempo até me habituar a esta nova perspectiva de drop. Talvez aquela questão das quedas não tenha sido bem resolvida. A diferença de tamanhos e os cinco dias entre os fins-de-semana também pareciam não estar a ajudar. ‘Falta-me algo intermédio’, pensei eu. E houve quem me lesse os pensamentos (talvez, aqui e ali, verbalizados).

O meu primeiro Dia do Pai no lado dos congratulados trouxe-me ‘a que faltava’, uma single fin 6’8”, verde-esmeralda. É certo que teve mais dedo da minha mulher, que num tão curto espaço de tempo consegue dar-me primeiro uma ‘obra-prima’ e agora uma ‘pedra preciosa’, mas acho que também conta. Ainda não a experimentei mas, obviamente, só muito dificilmente outra lhe superará o valor sentimental. E mesmo que isso aconteça, tudo acaba por ser relativo. É que, às vezes perdemo-nos em considerações várias que se afastam do que é realmente importante.

Nas ondas, a primeira coisa que vou ensinar ao meu filho serão ‘carreirinhas’ e para isso não é preciso prancha. Já para celebrar convenientemente quando fizer uma ‘até à areia’, a mãe dele parece-me indispensável. Para as minhas é.

((publicado na FreeSurfMagazine nº10, Abril 2009))



PS - para que não fique qualquer dúvida de onde vem este título, entre uma homónima dos Nirvana e por certo muitas outras que eu desconheça, este vem direitinho dos anos sessenta e do estalar de dedos dos The Temptations. No entanto, como o video-clip original tem uns passos de dança meio abixanados e se o Lewis Samuels aceitar o nosso convite também passamos a ser cinco, para não deixar espaço a interpretações dúbias optei por esta cover do Otis Reading, que tem bailarinas e tudo e tudo!


Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

O Vinho...

… esse doce licor que nem todos apreciam. O elixir que nos adormece as mágoas e nos incentiva a ir mais além. Associo muito o vinho ao fado… esse lamento que nos entranha na alma e nos faz sentir mais lusos. O vinho aquece-nos a alma e desfaz os momentos de introspecção em partilhas diversas…:

- Almocei hoje com alguns amigos da surfada. Juntámos as mesas e bebemos um bom vinho. Contámos longas e divertidas histórias – a grande maioria das quais não passavam óbviamente de sábias mentiras – muitas delas acerca dos bons velhos tempos, dos copos e das ondas partilhadas. Tantos contos e fábulas invariavelmente passados no mesmo areal que nos acarinhou todos estes anos.  

As viagens ao  longínquo e cálido Índico, as passagens pela América Central e do Sul e o alinhavar de novas travessias por esse mundo fora. Tudo apadrinhado pela reserva de 12,00€.

As namoradas que foram rodando pela matilha, as sacanagens com que nos brindámos e os ódios de morte que o tempo soube resolver, os dropinos mais ou menos inofensivos e por demasiadas vezes emoldurados em mazelas de carne e foam… um brinde a todos eles se faz favor.

As recordações, os sonhos e as esperanças de quem sempre viveu as manhãs de nevoeiro agreste do Oeste embrulhado em mantas espessas para logo de seguida enrijar ao sol ardente regado com nortada em abundância. Sangue, suor e lágrimas? Desculpem-me V/Exas a redundância mas vinho, surf e fado se faz favor!!!!