quinta-feira, 9 de abril de 2009

Um Deus passeando pela brisa da tarde


Sou preguiçoso.

Não o digo com especial orgulho, mas sim como uma constatação. Houve até alturas em que, 'sofismaticamente' e baseado numa afirmação em que se advogava a preguiça como característica dos inteligentes, tentava compensar o ego pelo cansaço provocado por todas as horas perdidas sem nada fazer. Tendo em conta que até o resultado ia de encontro à premissa inicial, quod erat demonstrandum.

Julgo que no princípio parte do interesse que vi no surf derivava da sua ligação ao mar e à praia, com os quais eu relacionava férias e descanso. Desde que me lembro que passava o Verão na praia, primeiro em colónias de férias, depois com os meus pais. Reparei na existência dos biquínis mais ou menos na mesma altura que na das pranchas, ambos provocando-me um crescente interesse. Sendo, ainda assim, um rapaz dedicado às suas paixões, tive de optar, o que fez com que a curiosidade levantada pelas pranchas fosse relegada para segundo plano e ficasse para esclarecer mais tarde. Adiante...

Não é pelo late blooming que o meu surf deixará de ser de manobras verticais ou outras manifestações de radicalidade extrema. É mais porque, obviamente, essa aproximação dá muito trabalho... e assim como na natureza poucas são as demonstrações de energia desperdiçada, na minha opinião, um estilo mais tranquilo, mais ‘conservativo’, sempre foi mais harmonioso. Curvas largas, linhas compridas, pequenos acertos aqui e ali, "smoothly and effortlessly". A energia libertada pelo mar já é mais que suficiente (aposto que já ouviram cantigas disfarçando falta de jeito bem mais desafinadas...).

Há ainda a questão de gosto e o meu nasceu no pranchão. Sam George, num artigo sobre os dez mandamentos do surf na SurferMag, verbalizava assim esta questão: "[...]simply making the decision to ride a longboard implies the appreciation of a certain aesthetic: grace, power, flow and the occasional insouciant thrust of the hip, arch of the back and cock of the head essential to the rebel's stance[...]". Sou dado a tradições pois, apesar de ele ressalvar que para andar bem de shortboard os requisitos básicos são exactamente os mesmos, para mim não há manobra que chegue aos calcanhares de um hang ten bem relaxado. Mais ainda se for daqueles à contra-luz do final de tarde, em que a onda serve de charneira entre as cores quentes que extinguem o dia e as frias que acendem a noite.

"Se o pecado é filho do desejo"... este é o meu original, um desses, com todos os elementos conjugados perfeitamente em que, aproveitando a boleia, preguiçaria um pouco mais. Mas, acreditando que cada um tem o que merece, enquanto isso não acontecer, posso sempre compensar o meu 'terreno ego' com outra afirmação, a de que há prazeres reservados apenas aos Deuses.

‘Sofismaticamente’, é claro. Sei que, para estes mais mundanos, a nossa humanidade é mais do que suficiente.


Fotografia de Jeff Divine

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