quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O amor é como uma alga verde!

Fotografia de David Doubilet, Algae Garden, South Australia

Era reguila em pequeno, mas por entre as tropelias e a par das traquinices, era também um miúdo meigo e bem-intencionado.

Lembro-me de num dia, ao ver a minha irmã, um ano e meio mais velha do que eu, a oferecer uma flor à minha mãe, lhe imitar o gesto. Nessa altura, do pouco de que me consigo lembrar, é que era costume seguir-lhe os passos – a imitação é sempre uma das primeiras formas de admiração – eu admirava-a e aprendia com ela as coisas de crianças, os jogos, as brincadeiras e, na mesma medida e importância, a forma de manifestar os meus sentimentos.

Dizia eu que, ao tê-la visto oferecer uma flor à minha mãe, teria feito a mesma coisa, bem, na verdade, não foi exactamente assim… A interpretação que na altura eu, no cimo dos meus 3 anos, consegui realizar, não alcançou que era com a beleza da flor que a minha irmã pretendia cativar a atenção da minha mãe… Colhi pois, o que me estava mais à mão, umas ervas, ao que parece. É claro que, a minha mãe, cumprindo o seu papel, se mostrou encantada com ambas as ofertas.

Não me posso deixar de rir para dentro, ao pensar que aprendi bem cedo, e graças à influência e presença feminina na minha vida, alguns gestos de sedução (obrigado mana, confesso que já me tem sido útil).

Deslindo ainda, por entre as minhas memórias de infância, um episódio semelhante, desta feita já mais velhinho e também já consciente da importância da qualidade da oferta.

Fotografia de David Doubilet, Mud Crab, Western Australia

Estava na praia a brincar entre os calhaus, a explorar o mundo, para mim fascinante, que se
expunha e revelava pela maré vazia. Recordo-me que tudo se passou na altura em que realizava a minha travessia pelos sete mares, por entre lutas titânicas com terríveis monstros marinhos… Vendo agora, talvez não fossem mais do que sete pocinhas e de dois ou três caranguejos com que me tenha deparado, mas, a questão que aqui importa, é que descobri por entre este cenário a alga mais nobre de entre as algas… Bom, pelo menos assim me terá parecido também na altura… Ondulava por entre os brilhos reflectidos pela água retida entre rochas evidenciando toda a sua beleza natural. Na minha ingenuidade de criança e dando largas ao meu lado sedutor, resolvi de imediato recolhê-la para, agora sim, oferecer algo de verdadeiramente grandioso à minha mãe.

A oferta não alcançou, no entanto, o objectivo em vista,
a alga, ainda agora tão deslumbrante, perdera fora de água, na minha mão, o vigor e a beleza com a qual a terei encontrado. Fora do ambiente aquático ela não se revelava, aparecia murcha e sem graça… A minha mãe, no entanto, e por estranho que pareça, voltou a sorrir agradecida. O que nós podemos aprender com as mulheres…

Lembrei-me desta história durante a última surfada que
dei. Já tinha entrado no mar pela manhã, talvez numa das sessões mais proveitosas deste ano, estava cansado, mas ao fim da tarde, com o sol a começar a debruçar-se no horizonte e na ausência de vento, não resisti e entrei novamente.

Assisti na primeira fila a um pôr-do-sol magnífico e uma estranha sensação de conforto apoderou-se de mim, de facto, confesso, toda esta história saltou do baú, devido ao facto de, e por muito ridículo que isto possa soar, me ter sentido, naquele momento, como a alga que encontrei anos atrás no seu habitat natural… Um ser marinho, no seu meio próprio, a revelar toda a sua natureza e… satisfação!

Deixei-me ficar dentro de água até escurecer profundamente e, naquela praia, fui o último a sair!

4 comentários:

Anónimo disse...

É bom saber que tens, tal como eu, tão boas recordações da nossa infância. É bom saber que, de alguma forma, contribui para a pessoa e o homem que hoje és.
É pena que hoje as circunstâncias e a correria do nosso dia a dia nos impeçam tantas vezes de continuarmos a partilhar experiências e de alimentar uma relação que durante tantos anos foi tão próxima e especial.
Adoro-te mano.
Sónia

Rita disse...

Todo o ser vivo tem origem da água. Nós nascemos da água, não admira que não nos sintamos bem nela.. E um bom filho a casa sempre regressa, costuma dizer-se...
Partilho contigo o bem-estar que o mar traz. O único sítio onde me sinto realmente bem...
Um beijinhos

Pedro Ferro disse...

E eu a pensar que só chamando aqui a família é que teria comentários simpáticos e afinal a Rita veio provar o contrário, "um beijinhoS" tb para ti! Obrigado.

Anónimo disse...

o 'adoro-te mano' da sónia paga direitos de autor pois, eu mandei-lhe uma sms semelhante quando ela fez anos (mas no feminino - mana) e ao que parece gostou muito porque foi logo dizer a mãe. Embora me sinta um pouco excluída da 'família' porque como a mim ninguém me disse para eu vir ler, e porque normalmente não sou mencionada nas vossas 'histórias de infância' ao que já não vos posso culpar porque estou deslocada uns 16 anos. mas eu também me lembro de oferecer relva a mãe, porque ela contou essa história (tu também eras o meu ídolo lol).
Gostei imenso do texto!
beijinho, adoro-te mano. :P
Inês