segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Mensagem


Ilustração de Vera Costa






"A Literatura, como toda a Arte,
é a prova que a vida não chega."

Fernando Pessoa


As certezas de Fernando Pessoa são assim,
têm o condão de se tornar minhas também.
À primeira vista estranho-as, depois...

Neste caso, pensei nela uns dias, como
quando uma música não nos larga o
ouvido e da qual, mesmo distraídos,
trauteamos o refrão. E de tanto pensar,
às tantas como a beleza que reside nos olhos
de quem a vê, ia-lhe lendo algum surf...

O surf como Arte… Somos nós que damos novas formas às ondas ou é o mar que nos molda a vida? Há quem jure que nada lhe falte enquanto surfista e, à luz daquela afirmação inicial, isso impossibilita-os de serem artistas… mas ao mesmo tempo, remam com todo o desejo do mundo para fazer a próxima onda... Provavelmente, a resposta será qualquer coisa de intermédio. Os relatos, fotos e os filmes de surfadas épicas serão a expressão das nossas memórias. Realmente, independentemente do autor, tem uma definição familiar...

Mas há medida que se reduz o que considero ser a sua essência, quando o leio também em frases de quem nunca pôs os pés numa prancha, sinto que até os adereços que levamos para dentro de água podem ser supérfluos. Quando, nas palavras de quem apenas imaginou o que faço, se dilui aquele sorriso misterioso que trago, ponho algumas questões em perspectiva...

Não há aqui nenhuma elegia ao empirismo. Não pretendo trocar a prancha por um livro ou, mais imodestamente, uma caneta. Arrisco então estas palavras, com mais desejo do que vaidade – desejo, que alguém lhe leia algum surf e, como todo aquele que sabe um segredo, alguma vaidade – porque talvez o surf não seja arte...

É que às vezes, mesmo por instantes, a vida parece-me chegar perfeitamente.


((Publicado na FreeSurfMagazine nº13, Julho 2009))

2 comentários:

Mogwai disse...

Sem dúvida, um dos melhores blogs que sigo actualmente. Pedro Ferro, demorou mas, agradeço-te pelo comentário no meu blog. Abraço, e boas ondas :)

Pedro Ferro disse...

Obrigado, Mogwai, pelas visitas e pelo cumprimento.

Por muitas interpretações pessoais que se possam oferecer ao surf, existe nelas algo de transversal e universal que nos permite rever em muita ideia escrita.

Provavelmente o gozo que extraímos do surf lido apenas seja fruto disso mesmo, de nos soar a eco de nós próprios.

E é verdade, o comentário que te deixei lá no teu blogue já deve ter mais do que um ano. Tempo, aliás, que o deixaste parado. Espero que nos venhas a brindar com mais futuros post's.