quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Abre los Ojos

Fotografia de Priscila Tessarini, Caleidoscópio


Gostava de ter chegado um dia, inocente mas já consciente, e deitar-lhe um primeiro vislumbre. Não importava que tivesse visto imagens ou lido descrições, tenho a certeza que iria olhar, pasmado, face à nudez que um corpo desejado veste pela primeira vez. Em vez disso, cresci com ele ali. Desde sempre, ao virar da esquina, dado como adquirido. Com a mesma facilidade com quer ia pedir rebuçados à Tasca do Tonecas, pegava na bicicleta e ia até à arriba, espreitá-lo.

A certa altura, sendo eu dado a maleitas crónicas nos olhos, disseram-me que haviam duas formas de descansar a vista: a perfeita escuridão e o horizonte marinho. Nunca foi nada de grave mas, com a elevada resistência à dor que o cromossoma Y confere, preparei-me para o pior e passei a ir à arriba mais vezes. Não importava se cinco minutos ou meia hora, de relance ou uma tarde inteira, embrenhava-me nele... Fui aprendendo a, revendo, ver de novo e a não ficar indiferente àquilo que é "normal", que se repetete dia após dia e tendemos a menorizar. Quando vinha diariamente da margem sul do Tejo para Lisboa, raramente deixava de contemplar o rio, o casario e o reflexo de luz muito particular que a cidade tem. Via muita gente com o olhar pousado no mesmo brilho mas, o da maior parte, estava perdido noutros pensamentos, inexpressivo. O surf, com as suas repetições, esperas e envolventes, apenas veio potenciar esta visão das coisas.

Hoje, já sem tempo para preencher tão livremente, uso mais vezes o breu para descansar. De tantas vezes a ter espreitado, consigo desenhar ao fundo aquela linha que, mesmo ténue como nos dias cinzentos, tanta cor dava aos meus dias. Quando o desejo aperta, mais perto da arriba, desenho também umas ondas, quebrando perfeitas, vestindo-se só para mim...


"Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens[...]"
Caetano Veloso, Terra


((Publicado na FreeSurfMagazine nº12, Junho 2009))

5 comentários:

Donald disse...

Mais um excelente post!
Vou começar a acompanhar este blog com mais regularidade. Que é feito do Rudas?

Anónimo disse...

Excelente mesmo...!
Donald, não te preocupes q assim q ou as ondas cessem ou os braços rebentem eu invisto algum tempo em caracteres... ;-)

Donald disse...

Pois, infelizmente tambem é isso que me tem levado a debitar a verborreia que lá se vê. Mas ao menos é da maneira que um gajo sempre se aproxima do mar!
abraço pessoal

André disse...

Um bom texto;
Gosto da sinceridade com que escreves.
Vou continuar a seguir a tua escrita.

Jorge Pinto disse...

Donald, uma vez que the man him self já veio dar notícias e até um ar da sua graça...

Rudas, amanhã numa daquelas boas, mesmo boas, em que eu tenha prioridade mas tu estejas logo ali ao pé, deixo-a passar para ti...

André, esperando poder continuar a merecer a tua leitura...

Grazie a tutti!