domingo, 29 de junho de 2008

Out of Time



E andámos tão ocupados ultimamente que quase nos esquecíamos que o mundo também gira delicada e deliciosamente para lá do tempo.

Recorremos ao essencial, tudo o resto me pareceu estar surpreendentemente à mão.

Vieste ter comigo e partimos de seguida, já de noite. Chegámos à praia um par de horas depois, ‘lançámos’ a tenda numa duna e estendemos-nos à Lua.

Por experiência levei uma garrafa, e pouco depois, rapidamente, naquela situação que me era tão estranhamente familiar, soltámos-nos do mundo para o nosso universo pessoal.


Amanhecer na 1ª linha de mar.


Orvalho matinal sobre a tenda.




Armérias, flora endémica lusitana.


Há sempre uma garrafa para beber e uma mulher para amar...


Não, não me esqueci da prancha... Foto pré-matinal solitária.

Fotos do próprio.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Wo Hu Cang Long




Estive para deixar passar Maio sem escrever por, no que toca a ondas, lhe ter visto pouca virtude...

Voltei para casa, quase sempre soprado por ventos, adversos, soando a suspiros, desabafos. A perfeição também cansa e, segundo rezam as crónicas, foi um Inverno perfeito.

Tentei preencher esse tempo com o Método Miyagi de wax on, wax off (ou vice versa, para ser mais exacto) e um ou outro filme, mas a combinação olfactiva e visual dos dois teve um efeito contrário ao pretendido, inquietando-me.

O mandarim do título remete para um felino agachado, pressentindo perigo, e um dragão escondido, aguardando. E tem aqui tanto de prepotência como de delírio...


___"[...]
___I must go down to the seas again,

___________to the vagrant gypsy life,
___To the gull's way and the whale's way

___________where the wind's like a whetted knife;
___And all I ask is a merry yarn

___________from a laughing fellow-rover
___And quiet sleep and a sweet dream

___________when the long trick's over."
___John Masefield, Sea-Fever


segunda-feira, 5 de maio de 2008

Carneirinhos contemplativos em terreno baldio com vista para o Mar


Edward Hopper, "Rooms by the sea"

"Há aquelas noites em que nos deitamos e que mesmo cheios de sono não conseguimos dormir.

Sabes como é, não é?

Por vezes parece que o frenesim insiste em nos acompanhar, ou que a inquietude se instala, ou ainda que somos invadidos por todos os pensamentos do mundo de uma só vez.

Nessas noites, mais do que à contagem de carneirinhos a pular a cerca, costumo recorrer às maiores ondas que já surfei... e volto a dropá-las.

Sabes? Adoro mesmo aquela sensação de olhar para baixo e, convicto, seguir caminho!

Nessas minhas fantasias tenho ainda a mais-valia de tudo suceder em câmara lenta, dando espaço para um deleite infinito e absoluto desses, que costumam ser apenas, breves instantes.

Acho que, ao fim ao cabo, o que vou buscar neste exercício nocturno é aquela confiança de que fazemos uso para um drope bem sucedido, a mesma que nos faz acreditar, nos momentos que o precedem, na nossa capacidade para o realizarmos.

E isso é arma quanto baste para me fazer vencer qualquer dos eventuais problemas que se queiram vir deitar comigo!

Por isso, Vera, parece-me que fizeste bem em registar devidamente essas tuas primeiras experiências 'surfísticas'... de momento podem ser apenas uma recordação agradável, mas quem sabe se não te poderão um dia valer numa noite de insónia!

*
Pedro"

Em resposta ao Post da Vera no seu espaço Índigo, com a devida edição que se impunha, dada a hora a que foi feita.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Amor-Perfeito


Vieste para ficar, disso não tenho dúvidas. Não é só o facto de seres uma conquista diária. Os teus diferentes estados de espírito, a volatilidade dos teus sentimentos e a reciprocidade dos meus, têm-me provado que não há razão para temer a tua fuga. Afinal, só fogem as coisas atrás das quais não se pode correr, e atrás de ti não há célula do meu corpo nem grama da minha alma que não galope. Tudo o que possa soar a cliché assenta-te como uma luva. São, aliás, criação tua. Sussurrar-te ao ouvido qualquer coisa que extrapole a simplicidade de um "Amo-te" é comprido demais para percorrer a distância que nos separa quando contigo me adormeço.


terça-feira, 22 de abril de 2008

Sonhar Durante o Fado


No ínicio eram só imagens...

Foi antes de pegar na prancha, por isso, mesmo que inequívoca e magnética, a sua beleza não incendiava sonhos.

Os textos também estavam lá mas faltava-me capacidade para os interpretar. Era como ouvir crianças cantando Fado, sem vida tatuada na alma nem tempo enrugado na pele. You won’t know until you go... Eu fui. E aí, qual Saca em Teahupoo'08, as palavras começaram a recuperar terreno.

Primeiro as crónicas do Gonçalo Cadilhe. Depois, com vários outros (alguns agora à distância de um click ali na linkografia), equilibrei definitivamente a relação pixéis/caracteres. Desde então, quantas vezes não ardeu meu pensamento no meio de toda aquela água...

Na conclusão deste texto, Seu Júlio Adler (outro dos meus pirómanos literários) salienta que uma das características do surf é a sua facilidade metafórica. Com a humildade de leitor/admirador, concordo plenamente. Em alguns momentos da 'vida real' vejo reflexos de surf tão nitidamente que quase sinto o spray num dia de offshore! E sei que bandeiras desfraldadas como as que vejo da janela do escritório atormentam muitos outros.

Sabendo que a minha mente trabalha por caminhos muito misteriosos, ver no Oh brother where art thou? dos irmãos Coen um trecho com algumas similaridades a tudo isto que acabam de ler pode não ser fácil.

Se assim for, mais que não seja, fica a música. After all, it soothes even the savage beast...




sexta-feira, 21 de março de 2008

Jacaranda mimosifolia

Fotografia de Anthony Ghiglia, detalhe


Não me lembro de todas as ondas que surfei.

Em vez disso, recordo-as por águas passadas que, ao contrário do senso comum, fazem mover um moinho. E aí são princípio e fim: cada onda é gota que faz girar a mó e grão moído empoeirando-se algures em mim, alimentando a vontade de voltar. Um todo de mar ido que impele para o mar que virá, felicidade gerando felicidade... Fecha-se o círculo.

Sem quaisquer traços de lucidez que não o de uma mnemónica se querer simples, chamo-as apenas e só por 'ondas'.

N'O Senhor dos Anéis, entre todas as outras fantásticas criaturas, Tolkien encontrou uma que achei particularmente poética: os Ents, pastores de árvores. Longevos seres, tendo por natureza a do próprio rebanho, de árvore "[...]tosca e densa, que ri do mundo vão e até da morte[...]". Sem pressas, no seu dialecto de longas e arredondadas sílabas conjugado com a ternura decorrente da responsabilidade, todas as árvores terão majestosos nomes.

Imagino que, nesse dialecto, a assonância e intrínseca alegria do nome 'Jacarandá' soaria melodiosamente por muito tempo. Não que inveje a imortalidade daqueles pastores ou seus prolongados trauteios, seria um desejo vão. Contento-me com a facilidade de, cumprindo a feliz contracção de carinho e festa no ‘cognome científico’, o chamar, sorrindo. Porquê? Simples, tenho-o por mnemónica.

Não me lembro de todos os pormenores do meu casamento. É um dia demasiado intenso... Mas de olhar para a minha mão sempre que a minha mulher, linda, me chamava marido, isso não esqueço.

Sorrindo, contemplava o círculo fechado...



terça-feira, 11 de março de 2008

Aos Noivos

Chegou-me hoje a casa, vindo da Austrália, o poster do filme “Glass Love” de Andrew Kidman, devidamente assinado e enviado pelo próprio.

É com alguma pena minha que não vou ficar com ele, mas é também com muito gosto que o vou oferecer ao Pinto por ocasião do seu casamento (fica aqui registada a novidade).

No outro dia falava com um amigo meu a propósito da feitura de textos ou outras criações pessoais que remetessem para sentimentos mais profundos, como o amor, por exemplo, e houve uma ideia que persistiu após a nossa conversa, que a complexidade de alguns sentimentos requerem que estes sejam tratados com a maior simplicidade possível.

Não resulta rebuscar, ou guarnecer de artifícios, o que já por si encerra um grande significado ou uma força extrema… o que é intenso sempre agrada mais quando despido ao essencial.

É essa capacidade que reconheço no Andrew Kidman, o facto de conseguir sintetizar no seu olhar o necessário e o suficiente para transmitir grandes emoções.

O poster em causa remete para os primeiros segundos do seu filme “Glass Love”, para uma das minhas sequências predilectas de entre os (muitos) filmes de surf que conheço.

Nela aparece suspensa na fragilidade do piano e voz de Chan Marshall*, a silhueta elegante duma figura feminina, Daize Shayne**, a deslizar serena e harmoniosamente por entre tons e brilhos dourados… como se se tratasse de um passeio estival num fim de tarde de Domingo.



Surf, imagem e som elevados à forma de arte, tudo parece estar em comunhão neste pequeno trecho de filme… Talvez, por esse mesmo motivo, tenha achado que um pedaço deste imaginário seria adequado para prenda de casamento.

* - Chan Marshall, a.k.a. Cat Power, regressa a Portugal para dois concertos nos dias 26 e 28 de Maio, respectivamente nos coliseus de Lisboa e Porto. Pelo sim, pelo não, já comprei o meu bilhete!

** - Cantora, modelo e já duas vezes campeã mundial de Longboard!