domingo, 24 de outubro de 2010

Making a short story long


Hoje surfei. Outra vez.

Camané, A Guerra das Rosas


domingo, 1 de agosto de 2010

Lines From a Poem

“Sabemos quanto agarrados estamos ao surf quando, na noite anterior a um novo swell, nos damos conta de ter acabado de limpar e repor o wax a cada uma das pranchas que pensamos vir a usar no dia seguinte.” – Se não era assim era parecido… Foram do Slater estas palavras, li-as algures há muito tempo atrás numa revista e ainda hoje, quando limpo e reponho wax nas pranchas, me revejo nelas.

Parto de férias daqui a uns dias e hoje fui o que andei a fazer: derreti-lhes ao sol o wax velho, raspei-o o melhor possível, lavei-as e repus-lhes uma nova camada. É terapêutico e curioso, enquanto lhes retiramos de cima as surfadas velhas também lhes vamos traçando as novas curvas que desejamos e antevemos.

Hoje, uns dias antes de realmente partir, já surfei um bocadinho em cada uma das praias que pretendo passar, e, para a coisa durar, entretive-me na tarefa:

sábado, 31 de julho de 2010

"If it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.

don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was."

Charles Bukowski, So you want to be a writer*



Hoje surfei.


*Retirado daqui

segunda-feira, 10 de maio de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pessoal e transmissível


Já pensei que o surf fosse algo estritamente individual. Que, apesar de todo o tipo de vivências conjuntas e trocas de experiências que proporciona, se pudesse reduzir apenas a um simples binómio entre Homem e Natureza. Um nós que é um eu, um eu e a minha onda. E aí, onde os outros têm a importância de um qualquer estranho com que nos cruzamos numa rua movimentada, assentavam as bases para este feitiço em que se torna a nossa relação com o mar.

Já pensei isso. E que esse feitiço era recíproco, num registo quase bipolar de quem quer o bem e quer o mal e afinal não quer nada... pois a dimensão dos elementos que se conjugam numa onda a quebrar nos reduz à mais pura e solitária insignificância, quando ao mesmo tempo que nos eleva à categoria de semi-deuses, por essa conjugação se dar num determinado momento, num determinado local, em nosso benefício.

Já pensei isso, já senti isso. O acto de surfar como uma moderna e válida teoria egocêntrica de um universo particular... O nervosismo, desde o imperceptível ao do limiar do pânico, revelando-se a chave para acelerar-nos de vida num big-bang, repetido ao expoente da loucura, viciante na sua simplicidade de meios face à complexidade do seu fim: uma pedra filosofal de boa onda, de bom feeling... Mesmo que assente num enleado jogo de desafios a que por vezes sucumbimos... mas que tantas mais os superamos. Eu sentia-o assim.

Mas, mesmo sem na altura o saber, o meu surf não acabava em mim. Não o acto em si. Não o meio mas sim o fim.

Quando o surf nos invade outros aspectos da vida, já não é de pranchas nem fatos que falamos, mas sim dessa boa onda, esse bom feeling, que trazemos do mar e que, naturalmente, partilhamos. Mesmo com estranhos e em ruas movimentadas.

Se há coisa que o surf me parece transpirar por todos os poros é que, a dada altura e mesmo que seja mais difícil do que estávamos à espera, temos de largar certos preconceitos, aproveitar a boleia and just go with the flow. Não ser contra, ser completo. E não ‘excepcionalmente’ ou ‘porque é Natal’, mas porque dar pode ser tão bom como receber.

Já pensei que o surf fosse algo
estritamente individual.
Estava errado.
Ainda bem.



Ilustração de Vera Costa








((impresso na FreeSurfMagazine nº18, Dezembro 2009))

terça-feira, 9 de março de 2010

Aves do Paraíso



Madredeus, Alfama



Sempre tive dificuldade em referir-me à senhora que ajuda em casa dos meus pais por ‘empregada’ ou ‘mulher-a-dias’. Não por ver algum desrespeito ao seu trabalho, nada disso. Mas porque a Dona Isabel rapidamente ultrapassou os limites que essas designações encerram, sendo quase família. Assim, da mesma forma que quando me refiro a um familiar acrescento ao nome o grau de parentesco, quando quero contar algum episódio em que entre a Dona Isabel, acrescento sempre o dela, o de senhora que ajuda lá em casa.

Pouco depois de me ter iniciado nestas coisas do mar visto do cimo de uma prancha, houve um dia em que a Dona Isabel me disse que havia ido passear no paredão da Caparica e reparado nuns quantos surfistas, a boiar feitos gaivotas. Que até me tinha tentado descobrir lá no meio, mas que mesmo à distância, não lhe pareceu ver a minha prancha. ‘O que é que eles faziam ali se não havia ondas?’, perguntou-me no seu jeito brincalhão, mas desconhecendo, por certo, que no peito de um marrequeiro também bate um coração. Devo-lhe ter esboçado um sorriso e respondido com o óbvio ‘banhar de prancha’, enquanto meio envergonhado pensava nas vezes que outros me terão visto também a limpar a minha...

Ultimamente, à medida que afazeres profissionais e familiares me vão reduzindo o tempo de surf, dou por mim a trocar de bom grado a incerteza de uma próxima sessão de ondas perfeitas pela garantia de uma outra, já amanhã, que inclua apenas uma lavagem dessas, de chassis e alma - não vejo a hora em que o meu filho comece a andar e todas as mensagens subliminares que lhe digo ao ouvido surtam o seu efeito: come a papa que é preciso ter força para chegar ao out-side!; no Comboio do Zoo cabe o elefante, a girafa e pelo menos três longboards...; olha lá aquele point-break de direitas no extremo da Ilha das Cores...

Como comecei tarde, sem aspirações a surfista profissional, não me importo que algum dia, no calor da descrição do que é surfar uma onda e por respeito aos que o são com S maiúsculo, venha a ter de corrigir aos meus interlocutores alguma inferência daquelas mais directas, tipo ‘ah, fazes surf? Então és surfista’ por um ‘Sim, faço surf. Mas fico em terra quando há tempestade no mar’.

Mesmo invernos rigorosos como este têm os seus dias de bonança. E nesses dias, qual gaivota, isso há-de querer dizer, de novo, mais tempo de mar.



“[...]Há outra entrada no paraíso/ Mais apertada/ Mais sim senhor/ Foi inventada por um anão/ E está guardada/Por um dragão[...]”
Pedro Ayres Magalhães, O Paraíso


Fotografia de Corey Arnold, The Birds

segunda-feira, 1 de março de 2010

Nervoso, mas sem medo de voar!


O avião só parte daqui a umas horas mas já sinto a efervescência do nervoso "miudinho" no estômago.

Esta não será uma viagem de surf, até que porque o destino não se presta a tal nesta época do ano, mas, ainda assim, sinto-me como que a apanhar a do set.

Tenho andado a falhar! Deixado ondas boas por surfar, andando pelos spots errados, desatento às condições ou simplesmente desligado da essência do mar - que cedo me ensinou a encontrar oportunidades mesmo quando se apresenta mexido e complicado.

Por vezes sinto que gastamos imensa energia a resistir à vida, a contrariar o que tão obviamente desejamos fazer... seguir nela sem direcção, acertando simplesmente o passo ao trilho que vislumbramos.

Pode ser que venham melhores, mas eu apanho já esta!

'té já!