
Apesar de pai de 3 lindas crianças, não me tenho como um surfista ressabiado - óbviamente que o meu anúncio preferido em qualquer revista de surf seja o da Reef, mas pretiro uma Surf Portugal ou Onfire a qualquer Soup num abrir e fechar de olhos… muito pelo conteúdo mais artístico e menos pretensioso.
Quando pequeno vivi um drama de dicção e ortografia. Julgo que por ser filho de emigrantes e não falar a língua mãe até aos sete anos de idade… entendia perfeitamente o português mas não articulava nada que não passasse pelo francês. Talvez daí a minha frase favorita, à época fosse uma derivação do rato e da rolha do rei da Rússia… estranhamente também nunca conheci Paris.
Ontem ao fim da tarde e depois de um dia de labuta intensa parei a chécar o swell antes do regresso ao lar doce lar, e como qualquer membro desta tribo do sal desesperei com o onshore fortíssimo que rebentava toda a santa linha que entrava bancada a dentro… ‘mais um dia sem surfar’. Deu-me para o pensamento e para a nostalgia…
A ampulheta e o broche. Felizmente que volvidos que estão quase 36 primaveras já decalco o sentido sexual destas duas palavras e cinjo-me assim à beleza respeitosa do termo. O broche não sei porque raio está nesta prosa mas seria para enfeitar uma lapela e não para tornar o fim de tarde mais promissor dada a espuma desordenada que me afligia a alma. A ampulheta – e porque se de alguma forma pudesse estar associado ao primeiro termo (se estivéssemos a levar isto para a sacanagem e dado o meu problema de dicção me enganasse no ‘Lê’) – mais não me ocorreu que a contagem de tempo.
O passar da areia pelo estrangulamento vítreo vs a nossa necessidade de quantificar o tempo. Existe também o dilema do meio copo cheio e do meio copo vazio. Alinhados que estão os termos da equação o que me ocorre são as ondas que já surfei… as memórias de adrenalina, velocidade e sentimento de preenchimento… aquela nuance bíblica do ‘caminhar sobre as águas’… dos sorrisos rasgados e dos episódios com os parceiros de Neptuno… e em que parte da ampulheta? Na areia que vagarosamente deixámos passar? Ou na que perdura ainda no bordo superior do vértice?
Estive agora 90 dias a olhar para a areia. Sem verdadeiramente a sentir, apenas a vê-la escorrer por entre os dedos… tudo o bom que possuo parece-me um pouco destemperado sem este sal que nos corre nas veias. Pensei na quantidade de areia que me faltaria mas tal poço relativo ao fundo, não lhe vislumbrei o topo… felizmente que assim o é ou temo que a algum tempo do fim poderia perder a pica de apanhar o set, de remar para a melhor!
Tanta gente me rodeia e demasiados com os olhos vazios e sem sal na vida. Obcecados pela ganância de ter um aquário maior que o do vizinho sem nunca conhecerem o prazer que é partilhar uma praia com os demais e uma onda com um Amigo.
Grão a grão a areia esvai-se e o copo fica cada vez mais cheio… ou vazio.







